terça-feira, 16 de dezembro de 2008

É Bom Recordar... Gian Carlos Poleto. Brasilia 2008

É bom recordar...
Aluno: Gian Carlos Poleto
Produção Elaborada em São Paulo, e selecionada a Brasília na Final da Olimpíada de Lingua Portuguesa de 2008.
Lembro-me de que tínhamos uma vida sofrida, com muito trabalho pesado. Levantávamos cedo para cultivar a terra, lavrando com boi ou cavalo de arado. Capinávamos com enxada as nossas roças novas e plantávamos de tudo, principalmente milho.
Cozinhávamos feijão, arroz de pilão, canjica de trigo socada no pilão – quanto trabalho! Fritávamos a carne de porco para guardar em latas de banha – hoje não se faz mais isso, existem os eletrodomésticos para facilitar. Cozinhávamos tudo no fogão de chapa. O que comprávamos em armazéns era apenas sal, açúcar e querosene; o restante tínhamos em casa – tudo natural.
Naquela época as primeiras moradias eram casas de tábua com piso de chão batido, colocadas sobre cepos e cobertas de tabuinha. Não tinha ruas, muito menos praças. Os homens faziam mutirão e arrumavam as estradas. Nós não destruíamos a natureza – não como se faz hoje -, apenas derrubávamos matos para fazer roças e para usar a madeira como lenha.
Na escola tínhamos que decorar um livro. Estudávamos todos na mesma sala com um só professor. Tínhamos medo dos castigos, como a palmatória e joelho no milho; por isso respeitávamos muito os professores. Escrevíamos em uma pedra e para apagar usávamos um pano. Não tinha cadeira, sentávamos todos em um banco. Nossas brincadeiras favoritas eram o passa-passará, jogos com bola, barra-manteiga, esconde-esconde... As brincadeiras eram mais sadias, diferentes das de hoje.
As mulheres faziam as roupas para toda a família. Elas usavam um vestido comprido. Calça? Nem pensar! Os homens usavam bombachas ou quilote e nos pés calçavam um tamanco de madeira e couro.
O namoro daquela época era bem diferente do de hoje, pois os pais nunca deixavam os namorados sozinhos. O rapaz vinha à casa da namorada e não tinha beijo. Os mais ousados “roubavam” suas amadas. Em relação aos pais, havia uma obediência total – só o olhar deles bastava para entendermos. Tínhamos que ter muito respeito com papai e mamãe.
Comemorávamos as festas de São João com pipoca, amendoim, fogueiras, e todos se confraternizavam. Batíamos surpresas – vizinhos combinavam e iam visitar um amigo desprevenido -, havia muita festa e comilança, e festejávamos o Natal e as festas tradicionais das igrejas. Uma comemoração importante foi quando fizeram a escola e a igreja no Barro Preto.
Nossa vila, o Barro Preto, começou com a igreja católica – de madeira -, com uma casa de comércio, uma igreja evangélica, uma serraria, uma olaria e um salão de bailes. Os primeiros habitantes eram imigrantes alemães e italianos, eram as famílias Shivinki, Gacho, Räder, Govari...
Lembro-me que no dia 20 de agosto de 1965 caiu neve, muita neve – achei que a casa ia cair! Matou muita criação e derrubou muita árvore. A neve somente derreteu quando começou a chover. Além da neve,outro fato que trago vivo na lembrança é de um ônibus que tombou sobre o rio Faxinal, resultando em dezenove mortes. Foi horrível...
O tempo passou depressa, muitas coisas mudaram, hoje tudo está tão diferente! Tanta modernidade, tecnologia que quase não consigo acompanhar. Apesar de tudo, vivo feliz com as lembranças da minha juventude.

(Texto baseado na entrevista realizada com dona Gilda Rodrigues Bueno, hoje com 66 anos).


Professora: Araci Dalsasso Escola: E. E. E. M. Dr. Roberto Löw Cidade: Nova Ramada